Receba Posts Por E-mail

Wednesday, April 06, 2016

Mudança II

Estou ficando louca! Preciso lidar com esta inquietude desconhecida, nada satisfaz - o fazer, o parar, o descansar, o despertar - nada!

Ao mesmo tempo não sinto infelicidade. Sinto todo um novo mundo ansioso por ser descoberto, contudo não sei por onde começar.

Na memória surgem imagens de liberdade, longos caminhos verdes e estradas para explorar. Diferente do habitual, não consigo ser calculista e prática. O desejo de não voltar à rotina briga com o anseio em bater o ponto.

Não sou mais eu quem comanda e sim todas as minhas pessoas tentando entender os novos procedimentos. É estranho como elas não gritam, não se desesperam, apenas conversam docilmente e mesmo sem respostas estão satisfeitas.

Um crescimento desproporcional e completamente incompreensível. Continuo sem conclusões tentando conviver com este novo corpo incapaz de decidir até qual prato de comida deseja devorar, muito menos qual realidade mergulhar.

Não me entristeço, nem vibro de alegria, apenas assisto passivamente tentando aprender algo com este novo momento.

Monday, April 04, 2016

Mudança

Em questão de minutos você é outra, no corpo da mesma, talvez até o corpo seja outro.

Após se acostumar (ou não), se entender (ou não), se descobrir (ou não) e se resolver (ou não) tudo é modificado. Nada mais será como antes, mesmo com muito esforço contrário.

Na verdade, em meio a tanto estranhamento, ainda busca achar o porto seguro do ontem para garantir mais coragem no hoje.

Aos poucos percebe a essência intacta e ganha força ao ver apenas mais uma mudança. Mais uma nova, diferente, desconhecida e misteriosa mudança!

Friday, December 11, 2015

Primavera Marcada


Naquela primavera larguei os meus livros e fui com as meninas pro litoral. O penúltimo ano da faculdade era tenso, quase não sai e neguei todos os convites para a praia. Desta vez, eu realmente precisava relaxar. As assustadoras provas finais estavam logo na esquina, mas eu tinha pontuação suficiente para sentir as ondas massageando meus pés sem pirar.

A Patrícia e a Lucia ficaram bem animadas por curtirmos a praia juntas. Relembramos o primeiro ano da facul quando descíamos quase todos os finais de semana, ou pelo menos, uma vez por mês. Fazíamos questão de retocar o bronzeado, engraçado, mesmo no inverno usávamos esta desculpa.

A água estava morninha, o sol nada exagerado, eu amava praia na primavera. Nada é demais, tudo fica equilibrado. E aquela noite seria especial, decidimos dormir na praia. Sempre tivemos vontade de fazer isso, mas arrumávamos desculpas e não rolava. Desta vez, a Paty nos surpreendeu, pediu ajuda para pegar umas coisas no porta-malas e voilá: uma barraca. Demos risadas nos sentindo cúmplices daquela armação.

Bebemos, tagarelamos e ouvimos o mar enquanto tentávamos nos enxergar à luz da nossa micro fogueira. Incrível, nos filmes elas ficam muito maiores e melhores. Já no gole número não lembro qual surgiram três rapazes. Não nos assustamos por completo, a Lucia tinha visto eles se aproximando e eram os paqueras daquela mesma tarde.

Conversamos, gargalhamos, cantarolamos e até rolou uns beijos. Mas, paramos por aí. Foi muito bacana. Então, acordei surpreendida por cada dedo da minha mão direita marcada por aquele encontro: Oi (polegar), liga (indicador) pra (médio) mim (anelar) 99567-7895 (mindinho). Sorri! Ele fez da minha manhã mais memorável do quê nossa noite.

Eu realmente tinha gostado dele, mas como um romance de verão, não acreditava na durabilidade de um de primavera. Até olhar meus dedos. Eu estava enganada, pelo visto, para ele também foi mais do quê bacana.

Um ano depois comemorei a data com uma tatuagem na parte interna do mindinho direito: oi, liga pra mim. Hoje, cá estou eu escrevendo esta memória antes de dar o primeiro passo para mais alguns anos juntos e continuar criando novas memórias.

Wednesday, December 09, 2015

Assim Sendo, Sou

Se eu fosse eu não tenho tanta certeza que seria tão mais sincera comigo mesma.

Se eu fosse eu ficaria confusa demais em tomar todos os cuidados para não permitir ser outra coisa além de mim. E nesta confusão, talvez me tornasse uma pessoa mais insuportável e infeliz.

Se eu fosse eu correria o risco de me impedir de viver coisas boas e más, acreditando não serem essenciais para mim, pois não teria tanta sabedoria para entender o quanto preciso disso ou daquilo.

Se eu fosse eu teria mais medo de viver, mais medo de errar, mais medo de ouvir e mais medo de compartilhar. Seria presidiária da minha liberdade.

Se eu fosse eu não faria muito sentido na sociedade em que vivo, teria tanta dificuldade de viver nela que colocaria em risco minha própria vida.

Sendo assim, ser eu do jeito que sou pode até não ser o cem por cento de mim, mas definitivamente é o eu mais puro dentro de todo este meu Mundo Real.

Monday, December 07, 2015

O Coletor de Memórias














- Filha, já passou da hora de trocar este edredom hem?! Vou comprar um novo pra você.

A minha mãe é muito teimosa. Continua com este papo de querer trocar meu edredom. Não sei pra quê tanta preocupação. Primeiro: é meu. Segundo: continua cheiroso. Terceiro: edredom novo é duro, não é fofinho. E quarto... Ah quarto... Memórias.

Eu vivi com este edredom mais emoções e aventuras que qualquer outra coisa. Com ele dormi, acordei, fiz barracas com meu irmão, protegi espelhos nas mudanças, fui acampar, assisti filmes no sofá, paquerei na fogueira, estiquei no gramado do quintal, vi ele sendo ensopado pela chuva que entrou debaixo do piso do meu quarto, lavei, sequei e não rasguei. Ok, até tem um micro buraco, mas foi bem criado para não expandir.

Ela tentou. Comprou um edredom mais bonito e até maior, afinal de contas o tempo deu uma esticada em minhas pernas – ou as lavagens o fizeram encolher?! Bom, certa manhã acordei com um cheiro esquisito, impessoal e novo.

- Maeeenhêeeee!!!! 

Não acredituu!!! Ela trocou! Como se eu não fosse notar! Sai chutando tudo, que desaforo. Ok, ok, nenhuma conta chega em meu nome, mas poxa vida, custa deixar o meu edredom quieto no canto dele.

- O que foi filha?!

- Como assim o que foi?! Cadê ele?! Cadê meu edredom?!

- Aquele pano de bunda?! Coloquei lá no fundo pra gente dar fim. Já deu né?! Você é uma moça e precisa deixar de lado essas coisas.

Bufei. Não respondi. Apenas sai correndo para salvar meu edredom do quadrado escuro e úmido em qualquer caixa fedida. Já pensou se algum rato come ele ou, sei lá, qualquer outro bicho acredite ter o direito de tomar posse do MEU edredom.

Voltei pro quarto agarrada nele, olhei bem no fundo dos olhos da minha mãe, pedi licença – porque não sou boba de bater a porta na cara dela, era arriscado demais – e me tranquei no meu quarto.

Depois deste dia ela nunca mais tocou no assunto, nem eu. Não sei se entendiam a importância dele, tô nem aí, desde que continuasse comigo coletando minhas memórias.

Friday, December 04, 2015

Nossa Travessia














Típica manhã de outono em meio à primavera e chegada do verão. Ótimo para passear de carro, sem acelerar, curtindo a paisagem, sem se importar com a vida. Abri toda minha janela para sentir a brisa refrescada pela garoa que acabou de passar, enquanto curtia uma rádio com batidas perfeitas para o momento.

Seguindo por aquele percurso eu era livre. Tática infalível para lidar com preocupações. Não ultrapasso a velocidade, sou a boa garota do trânsito, dou sinal para carros passarem, o tempo não é meu inimigo.

Impossível não sorrir de satisfação. 

Avisto a lombada eletrônica, reduzo a velocidade, você atravessa. Não esperava! Minha única preocupação era a multa de velocidade. Atravessou olhando em minha direção. Como em câmera lenta eu segurava o carro e você terminava sua cruzada sem tirar os olhos de mim. Um olhar inocente e muito sexy. 

Fiquei sem graça, não acreditei muito e sem pensar olhei para o retrovisor. Lá estava você, ainda me olhando com um sorriso misterioso e, neste mesmo segundo, nossa trilha sonora tocava: “você chegou, quase me matou, foi daquele jeito todo baile parou, quase me levou, me levou todo ar arrrrrrrrrrr...”.

Share