Coisas Da Vida !!!

A vida pode nos deixar de "boca aberta" em momentos e circunstâncias velhas, novas, iguais e diferentes

Cadeira de Balanço: Leite Derramado

by - 10:52 AM

“Cheguei sem fôlego à porta entreaberta do banheiro, e o que vi foi Matilde debruçada na pia, como se vomitasse (...) Corri para a abraçar, envergonhado de meu mau juízo, mas ela aprumou o vestido bruscamente e se esquivou de mim, deixando a torneira aberta. E vi respingos de leite nas bordas da pia, o ar cheirava a leite, vazava leite do vestido de sua mãe”.
Leite Derramado - Chico Buarque


O prêmio Jabuti 2010, na categoria ficção foi "Leite Derramado" de Chico Buarque. A obra de Buarque é envolvente, pode ser lida em um dia, nada muito rebuscado, porém com um certo teor histórico interessante. É possível passear por uma Rio de Janeiro em seus momentos auréos e de crise, bem como pelo mundo. Bem como o comportamento da sociedade neste período - pobres x ricos, negros x brancos, mulheres x homens.

A história gira em torno da cama do doente e já idoso Eulálio Assumpção e suas experiências de vida. Ora a conversa acontece com sua filha, ora com a enfermeira, ora sozinho. Uma construção não-linear de lembranças e pensamentos que fazem jus à situação encontrada pela personagem. Isto é, não se assuste se em alguns momentos estiver lendo a mesma coisa, Buarque não errou na mão, pelo contrário observou a necessidade da repetição, algo natural para um moribundo.

Mas Eulálio sede, aos poucos, o lugar para sua admirada esposa Matilde, esta só presente em memórias, entretanto tão bem delineada na voz do doente que nos vemos próximos de Matilde e procuramos compreender quem de fato era Matilde. Além de nos perguntarmos o que, afinal de contas, aconteceu com Matilde.

O brilhantismo nesta obra está justamente em nos colocar frente a dois personagens intensos, mesmo um deles não estando presente. Continuamos nossa leitura pelas memórias de Eulálio procurando ver além das palavras verbalizadas, como se pudessemos compreender as entrelinhas de um homem que viveu os altos e baixos da vida em todas as suas formas.

A obra dá o seus último suspiro de maneira poética, e percebemos que por momentos realmente acreditamos ser Eulálio Montenegro d'Assumpção um real cidadão das praias cariocas.

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