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Linguagem arquitetônica

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"A arquitetura é uma forma de comunicação e a cidade, um discurso" -
David Harvey

A construção espacial moderna mais preocupada com o comportamento social e, o vínculo prático existente entre a obra e a pessoa. Em contrapartida, os pós-modernistas articularam uma realidade mais ligada à estética, a intemporalidade da beleza. Cria-se então a eterna disputa entre arquitetura e o projeto urbano, isto é, os efeitos que serão criados ante aos hábitos diários daqueles que utilizaram desses espaços. Ao mesmo tempo que discute-se a criação e desenvolvimento desses centros urbanos, como uma forma de linguagem. A comunicação que falará sobre a história e transformação de uma sociedade.

“Se experimentarmos a arquitetura como comunicação, se, como Barthes (1975-92) insiste, ‘a cidade é um discurso e esse discurso é na verdade uma linguagem’, então temos de dar estreita atenção ao que está sendo dito, em particular porque é típico absorvermos essas mensagens em meio a todas as outras múltiplas distrações da vida urbana”. (HARVEY: 1992, p.69-70)

Leon Krier, arquiteto, criticará o formato do modernismo quanto a sua defesa ao ‘zoneamento monofuncional’, afirma ser esse um formato que destaca a ‘monotonia funcionalista’, isto é, se trata de um zoneamento, meramente, funcional. Construções criadas em ‘blocos’ de interesses, por exemplo, o centro econômico, o centro comercial, o centro residencial, etc.

“Krier contrasta essa situação com a ‘boa cidade’ (por sua natureza ecológica), em que ‘a totalidade das funções urbanas’ é fornecida dentro de ‘distâncias a pé compatíveis e agradáveis’. Reconhecendo que tal forma urbana ‘não pode crescer por extensão em largura e altura’, mas somente ‘por multiplicação’, Krier procura uma forma de cidade formada por ‘comunidades urbanas completas e finitas’, grande família de quarteirões urbanos que formam, por sua vez, ‘cidades no interior de uma cidade’. Somente nessas condições seria possível recuperar a ‘riqueza simbólica’ de formas urbanas tradicionais baseadas na ‘proximidade e no diálogo de maior variedade possível e, portanto, na expressão da verdadeira variedade, evidenciada pela articulação significativa e honesta de espaços públicos, do tecido urbano e do horizonte”. (HARVEY:1992, p.70)

Ao mesmo tempo em que, o pós-modernista se destaca pela ausência de preocupação, somente, no âmbito social, ele ressuscitará ideias tradicionais na defesa da construção de projetos urbanos mais ‘completos e finitos’. A velha questão de ter tudo – moradia, trabalho, lazer – em um espaço só. Desta forma, discute-se até que ponto não há preocupação com o hábito diário.

O momento pós II Guerra Mundial deu impulso aos novos pensamentos com relação aos projetos urbanos. Era preciso valorizar aqueles que tinham sofrido no conflito. Assim, os modernistas precisam ser relevados em vários aspectos. Já que se encontravam em um momento não só de mudança, mas, de formação comportamental/urbana, reconstrução.

Muitos casos, as construções surgiram do zero. Para receber, da melhor maneira possível, os homens da pós-guerra. Talvez, por essa razão, tinham um olhar mais social.

“É completamente errado, penso eu, pôr toda a culpa dos males urbanos do desenvolvimento pós-guerra nas costas do movimento moderno, sem considerar a música político-econômica conforme a qual dançava a urbanização do período. O surto de sentimento modernista era, no entanto, disseminado, e podia sê-lo, ao menos em parte, em função da considerável variedade de construções neomodernistas realistas a que a reconstrução de pós-guerra deu origem”. (HARVEY:1992, p.73)

A não necessidade da emergência da construção urbana, mais as novas tecnologias, colocam o arquiteto e urbanista pós-moderno em uma situação mais cômoda, podendo explorar mais a estética. Tudo pode ser feito de maneira mais pensada e, com criatividade. O que pode ter sido compreendido como um comportamento que não respeitava as necessidades básicas. A liberdade de se expressar através de seus projetos.

Entretanto, este novo formato de pensamento, possibilita maior proximidade com gostos e particularidades. Estes, inicialmente, acabam restritos aos de melhor renda financeira. Desta forma, constrói-se uma nova paisagem urbana, espaços fechados e belos, como os shoppings, que passam uma falsa ilusão de mundo perfeito. O surgimento de uma nova sociedade, o capital simbólico. A busca pelo status.

“O problema é que o gosto está longe de ser uma categoria estática. O capital simbólico só se mantém como capital na medida em que os caprichos da moda o sustentam”. (HARVEY:1992, p.82)

A pós-modernidade lidará com um mundo mais eclético, onde vários comportamentos e culturas se encontram em um único espaço.

“Lyotard apresenta um eco exato desse sentimento: ‘O ecletismo é o grau zero da cultura geral contemporânea. Ouvimos reggae, assistimos faroestes, almoçamos no McDonalds e jantamos comida local, usamos perfume de Paris em Tóquio e roupas ‘retrô’ em Hong Kong. A geografia de gostos e cultural diferenciados se torna um pot-pourri de internacionalismo que em muitos aspectos é mais espantoso, talvez porque mais saturado, do que o alto internacionalismo já o foi”. (HARVEY:1992, p.86-87)

As contradições pós-modernas da proximidade dos serviços, como as vilas e, a necessidade de expor respeito através de suas construções. A beleza colocada em alto patamar de preocupação e prioridade.

Na modernidade o poder, apresentado pelos edifícios e construções, tinham como maior finalidade a valorização do homem (o ‘ego’) por se tratar de um período pós-guerra. Já o poder e grandeza, explorados pela pós-modernidade, terão mais relação com a necessidade de ‘saciar o ego’, a eterna busca pelo status e posicionamento social. Alguns exemplos ficam visíveis nessa na transição citada abaixo:

“Bastou um passo para a comercialização institucionalizada de um espetáculo mais ou menos permanente na construção de Harbor Place (um desenvolvimento à beira-mar que, segundo dizem, hoje atrai mais pessoas que a Disneylândia), de um centro de ciências, de um aquário, de um centro de convenções, de uma marina, de inúmeros hotéis, de cidadelas do prazer de toda espécie. Julgada por muitos um notável sucesso (apesar de o impacto sobre a pobreza, a falta de habitação, a assistência médica e o fornecimento de oportunidades de educação na cidade ter sido insignificante e, talvez, negativo), essa forma de desenvolvimento exigia uma arquitetura totalmente diferente do modernismo austero da renovação do centro das cidades que dominara os anos 60. Uma arquitetura do espetáculo, com sua sensação de brilho superficial e de prazer participativo transitório, de exibição e de efemeridade, de jouissance, se tornou essencial para o sucesso de um projeto dessa espécie”. (HARVEY:1992, p.90-91)

A arquitetura pós-moderna será trabalhada como um meio de publicidade do local. Uma maneira de chamar a atenção para sua estrutura, diversidade sociocultural, visando maior captação de capital. A necessidade do pós-moderno desconstruir o moderno, porém, manter o ar literário na sua comunicação espacial.

Análise com base em um capítulo do livro "Condição Pós-Moderna" - David Harvey

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