Coisas Da Vida !!!

A vida pode nos deixar de "boca aberta" em momentos e circunstâncias velhas, novas, iguais e diferentes

O Vale da Esperança

by - 5:23 PM


- Quem tiver dormindo, acorda!!! Porque a Guerra acabou!! – Um grito ecoava pela vizinhança.
Mesmo sendo apenas uma garota, e, uma garota de doze anos, Virgínia sabia o significado daqueles gritos, compreendia perfeitamente a alegria de seu pai, sua necessidade de gritar pelos quatro ventos o final da guerra. Todos os vizinhos precisavam saber, estavam a salvo, mais nenhuma mãe corria o risco de ver o seu filho em uma guerra sem pé nem cabeça.
Virgínia morava com seus pais em São Paulo, a cidade estava em crescimento, mas o que mais ocupava as conversas na casa da vó não eram as mudanças e sim o medo.
Longe daquela cidade acontecia a II Guerra Mundial, porém, não era longe o suficiente para se sentirem seguros. O Brasil optou em ajudar os Estados Unidos na batalha em território europeu, nesta ajuda, vários homens brasileiros foram selecionados, não uma seleção digna de guerra, com preparação física e ademais, pelo contrário, eram jovens sem experiência militar, muitas vezes retirados de seus lares sem nem mesmo compreender o que estava acontecendo.
O desrespeito com estes jovens foi uma das razões que lotaram Guanabara e o Vale do Anhangabaú na chegada dos pracinhas em 1945. A população estava aliviada, ao mesmo tempo em que se orgulhavam por ter de volta os filhos da terra arrancados, sem nada, para viverem no inferno, não sabiam nem mesmo como usar uma arma.
A vó de Virgínia rezava todos os dias pelos seus filhos e torcia pelo fim daquela tortura, odiava aqueles alemães. A vizinha e amiga não tivera a mesma sorte, viu seu filho partir, para talvez, nunca mais voltar. Mais tarde, ele até voltou, mas não era o mesmo, veio doente, algo estava diferente. A garota Virgínia sabia tudo e mais um pouco, aprendeu com a vó a odiar situações militares, bem como se indignar com a atitude de seu país em enviar brasileiros para uma guerra que não era sua. Logo, quando ouviu a vibração de seu pai, lembrou de todas as histórias enquanto corria ao encontro dele.
O pai a pegou pela mão pegou seu irmão, colocou todos no carro e correu em direção ao Vale, desta vez o passeio não era para ver o Papai Noel, o Vale do Anhangabaú receberia os soldados brasileiros vindos da II Guerra. Ela não acreditava no que estava vendo, era tanta gente e tantos pracinhas, eles eram chamados carinhosamente desta forma pela população, todos gritavam, aplaudiam, choravam, nada nem ninguém conseguiu conter toda aquela alegria e comemoração. Para Virgínia foi um momento mais do que louvável, eles mereciam ser homenageados a altura. Ela sentiu ali que eles deveriam ser sempre relembrados, sempre celebrados, foram corajosos em um país nada democrático.
Mal sabia ela que ao contrário dali, o Rio de Janeiro não ficou somente nos gritos e palmas, mas preparou uma festança, bandeirinhas, serpentinas, músicas, autoridades, famílias, se misturavam no calor da emoção de ver aqueles jovens vivos. As marchas oficiais não conseguiam ser oficializadas, pois um pai voava para abraçar seu filho, ou o filho largava tudo para correr para o colo de sua mãe.
São Paulo estava recebendo aqueles já recebidos e prestigiados pelo Rio, o privilégio de assistir aquela cena não foi somente da paulistana, mas também dos cariocas. Virgínia sentia uma emoção imensa, ver aquele monte de gente reunido, criança, velho, novo, adulto, homem, mulher, seus olhos não enxergavam o final daquela multidão. Ela olhava para a alegria estampada na face de seu pai e sorria, como se uma alegria imensa lhe invadisse a alma por saber que não somente todos estavam ali, mas os cinco filhos de sua vó também e, claro, o seu pai.
Via em sua vó a melhor mãe do mundo, suas rezas não somente protegeram sua família, como ajudaram a trazer muitos de outras famílias. Era a alegria de casa. Não importa o que aconteça, ela sabia ser aquele um momento para ser lembrando para o resto da vida.
Não é para menos que ao crescer Virgínia não só lembre esta história como brigue pela honra de seus soldados. Uma viagem a Itália fez conhecer de perto os lugares por onde os pracinhas passaram, lutaram, tiveram fome, frio, usaram roupas emprestadas, viveram e morreram. Chorou! Entendia mais ainda o que todo aquele dia no Vale significou. Conheceu o lugar reservado, por direito, aos mortos de uma batalha injusta, e não permitiu histórias contadas de forma errada. Afinal de contas, eles podiam ser ignorantes e não saberem direito o que estavam fazendo ali, mas, eram brasileiros cumprindo um dever nacional, mesmo sem direito algum. Lamenta, em saber que poucos sabem destes acontecimentos, lamenta ao ver como esta história foi esquecida seja nas salas de aula, nas conversas em casa, e ainda se emociona ao pegar um jornal e ver que alguém se lembrou daqueles pobres coitados heróis de guerra.

You May Also Like

0 comentários